Do algoritmo à materialização
O ponto de partida de cada peça é frequentemente um sistema: uma grelha ortogonal, um padrão hexagonal, uma sequência de deformações geradas por código, um conjunto de instruções precisas determinando ângulos, repetições e simetrias.
A passagem do algoritmo para a matéria não é uma simples cópia — é uma tradução. Nas peças em fio de cobre, mais de mil parafusos são fixados em tábuas de madeira, e o fio cria o desenho camada sobre camada. Embora cada quadrante possa conter os mesmos elementos, o resultado visual distingue-se porque a ordem importa: a camada superior capta mais luz, enquanto as inferiores projetam sombras.
No bordado e no sashiko, o fio tem peso, a mão tem tremor, o papel e o tecido resistem. Cada ponto executado manualmente introduz variações mínimas que humanizam a estrutura. A regra permanece visível, legível — mas a repetição sistemática não elimina a expressão, torna-a possível.
Ecoprint
O processo de impressão botânica, passo a passo.
Recolha
Seleção e recolha de plantas — folhas de eucalipto, estrelícia, rosa, feto, carvalho e outras espécies — em caminhadas pelo Norte de Portugal.
Preparação
O tecido ou papel é preparado com mordentes (alúmen, ferro, vinagre) que permitem fixar os pigmentos vegetais.
Impressão
As folhas são dispostas sobre o suporte, que é depois enrolado firmemente e cozido a vapor durante várias horas.
Resultado
Após o arrefecimento, o rolo é desenrolado e as folhas removidas, revelando a impressão irrepetível. O controlo do resultado não é total — a planta decide como se revela.
Tempo e repetição
Bordar é aceitar o tempo. Cada ponto é um gesto mínimo que, repetido milhares de vezes, constrói uma superfície. Não há ctrl+z no bordado — cada furo da agulha é uma decisão irreversível.
A repetição não é monotonia: é variação dentro de uma regra. Cada ponto carrega pequenas variações involuntárias que se acumulam e criam uma textura viva, orgânica. É assim que a complexidade emerge da repetição — como em Alnitak, onde regras simples de sashiko geram uma composição de elevada complexidade visual.
Nas esculturas têxteis, a lã de Arraiolos é tensionada ao longo de todo o perímetro de estruturas em aço, com fios que se avolumam no centro criando a ilusão de movimento. O degradê de cores acentua a noção de dinâmica, e o observador descobre perspetivas distintas ao movimentar-se em torno da peça.
